A viola caipira e a Orquestra Ituana de Viola Caipira

Em comemoração à retomada dos ensaios abertos da Orquestra Ituana de Viola Caipira, coordenação de Célia Trettel e Adilson Rodrigues da Silveira, decidi juntamente com o Jornal de Itu, prestar uma homenagem à Orquestra Ituana, com um texto sobre alguns aspectos da viola caipira.

Receba as principais notícias do dia no WhatsApp!
Entre agora no nosso grupo oficial e fique por dentro de tudo em primeira mão.
👉 Entrar no grupo do WhatsApp

Falar da viola caipira é falar de um dos símbolos mais fortes da cultura brasileira. Viola caipira é, sem sombra de dúvida, senão o mais importante, um dos mais populares instrumentos da cultura brasileira, sobretudo nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Isto sem esquecer o Nordeste, região onde a viola caipira, chamada de viola nordestina ou viola sertaneja, apresenta algumas variantes. Vale observar ainda que a mesma viola caipira pode ser conhecida como viola cabocla, viola .

A origem da viola caipira remonta aos Séculos XV, XVI e XVII, quando teve presença marcante em Portugal. Foi com os colonizadores e jesuítas portugueses, no Século XVI, que a viola chegou ao Brasil com o nome de vihuela, utilizada para acompanhar canções e pequenos solos. Entre nós foi assumindo novas características, que iam desde o seu formato até suas afinações. Anos depois, já nas mãos de nosso caboclo, passou a ser conhecida como viola. A partir dessa mudança, esse instrumento rústico se transformou num símbolo de resistência, capaz de traduzir, de forma muito clara e poética, todo o sentimento humano. A viola, em toda a sua singeleza, expressa amor, tristeza, alegria, religiosidade, misticismo, saudade e solidão, sentimentos que habitam a alma do homem do interior brasileiro.

A viola caipira teve sempre presença marcante nas Cantorias de Devoção, Cantorias de Diversão, Cantos de Trabalho ou, mais claramente, na Moda de Viola, na Catira, na Congada, na Curraleira, na Cana Verde, no Fandango, no Cururu, na Folia de Reis, na Folia do Divino e em tantas outras manifestações do folclore brasileiro. Devemos observar que é muito comum, também hoje, a presença da viola caipira na MPB, o que não deixa de dar um colorido muito especial aos arranjos. Em razão disso, a viola caipira vem assumindo papel cada vez mais significativo, tanto no campo como Sobre esse instrumento, o violeiro e pesquisador Roberto Corrêa publicou uma a significativa obra: “A Arte de Pontear Viola”, (Ministério da Cultura/ Brasília/2000), fazendo um levantamento completo a respeito deste instrumento, desde os aspectos históricos envolvendo origens e transformações, passando pelas diversas afinações, técnica de execução e assim por diante.

A música caipira

O termo “música caipira”, freqüentemente, remete-nos aos diferentes estilos e gêneros de música produzidos pelas duplas caipiras. Porém, a música caipira, como a música de expressão caipira, abrange outros fazeres musicais: das músicas de autoria produzidas no contexto das manifestações tradicionais a composições modernas e desvinculadas de regras e de estilos definidos. É conveniente lembrar que não se pode falar em música caipira, em cultura caipira sem falar de um dos maiores marcos da manifestação da alma e do talento do homem caipira, que foi o mestre de todos nós, Cornélio Pires, que foi sem dúvida uma luz no centro do mundo caipira.

Cornélio Pires

A década de 30 tornou-se marcante na música caipira e na música sertaneja de raiz a presença do folclorista Cornélio Pires, que deu início ao processo de divulgação de nossas modas caipiras, tanto no interior, como na própria cidade de São Paulo, tendo realizado, nesta época, uma palestra sobre a cultura caipira no já tradicional Colégio Mackienze oportunidade em que mostrou ao público paulistano o que era um Mutirão, como era o lazer e um velório no mundo caipira, a devoção e a gastronomia do homem do interior. Naquele momento ele estava dando o primeiro grande passo em favor das manifestações culturais do homem do interior.

A aceitação na abordagem do tema, primeiramente na capital paulista e depois pelo interior levou-o a criar a pioneira Turma Cornélio Pires, compostas pelas seguintes duplas caipira: Mandy e Sorocabinha, Zico Dias e Ferrinho, Mariano e Caçula. O sucesso foi tão grande, que a gravadora RCA Victor acabou sendo obrigada criar também ainda no início da década de 30, a Turma Caipira Victor, na qual o carro chefe era a dupla Torres e Florêncio. Algumas Músicas são básicas e servem como marco e referência dentro desse processo histórico são verdadeiros clássicos representados por pioneiros como Cornélio Pires e de Raul Torres.

A viola e suas afinações

A fabricação e a afinação da viola caipira variam de violeiro para violeiro. Há no Brasil fábricas de violas que produzem instrumentos em série, mas existem também as violas fabricadas por encomenda, artesanalmente. Essas violas feitas de forma artesanal gastam no mínimo dez dias para ficarem prontas.

Existem mais de vinte afinações de viola caipira no Brasil. Entre as mais conhecidas podemos destacar Cebolão, Paulista, Rio Abaixo, Goianinho, Goianão, Boiadeira e Cebolinha. Isso serve para provar os recursos e riquezas múltiplas desse instrumento. A viola fala, a viola geme, a viola chora e consola. A viola, “com sua cascata de sons harmônicos, agrada a qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade”, como escreveu o violeiro e professor de viola caipira, de São Jose do Rio Preto, (SP), Enúbio Queiroz.

Do sertão para o teatro

A viola, esta fiel companheira de muitos violeiros, vai, aos poucos, ressurgindo com força admirável. Andaram dizendo que a viola estava 10 desaparecendo, que a viola estava sepultada. Na verdade, ela nunca desapareceu da vida brasileira. Ela esteve sempre presente na casa humilde do caipira, do caboclo na roça, no interior, nas Folias de Reis, nas Festas do Divino, nas rodas de Catira. Felizmente hoje a viola chegou com muita virtuosidade aos teatros, auditórios e universidades. Ao contrário de desaparecer, a viola caipira está cada vez mais presente em nossas vidas, tanto na roça como na cidade. Para citar apenas casos isolados, os violeiros Roberto Corrêa, Renato Andrade e Almir Sater já se apresentaram em vários países, revelando ao mundo o poder e a magia de nossa viola caipira.

O Brasil tem sido ao, longo dos anos, o berço de talentosos violeiros que vão de Theodoro Nogueira a Pereira da Viola, passando por Geraldo Vieira, Julião, Tião Carreiro, Zé Coco do Riachão, Almir Sater, Bambico, Zé do Rancho, Anacleto João de Sousa, Marcos Biancardini, Velozinho, Reis Moura, Helena Meireles, Renato Andrade, Ivan Vilela, Paulo Freire, Enúbio Queiroz, Gedeão da Viola, Heraldo do Monte, Milton Edilberto, Mestre Braz, Chico Lobo e tantos outros que se espalham pelos campos e cidades desse país continente.

Saber ouvir esses violeiros é mergulhar na poesia pura, no lirismo absoluto que brota e floresce nas veredas dos imensos sertões. Felizmente, o Brasil experimenta, nos dias atuais, uma nova vertente no âmbito cultural, abrindo, dessa maneira, um novo horizonte que nos leva ao resgate e à preservação de nossas raízes culturais.

  • Álvaro Catelan, natural de Ubarana (SP), atualmente mora em Itu. Formado em Letras vernáculas pela PUC-GO. Autor de vários estudos sobre literatura e Cultura Caipira. Foi presidente da Comissão Goiana de Folclore.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *