Minha constante, minha fórmula de Bhaskara
Olhei para ela e disse, sem aviso:
— Você me bagunça!
Sem conhecer a música, ficou com o enigma no olhar. Adorei.
Somos a prova viva do inusitado, do ponto fora da curva. Nossa história começou num evento que desafia a probabilidade — seja lá o que o tempo nos reserve.
Antes, eu vivia em uma equação de segundo grau. Conhecia a Fórmula de Bhaskara; sabia encontrar as raízes, resolver o delta e chegar à solução. Havia controle.
Bem, era assim até…
Até cruzar seu olhar no corredor — sim, desse jeito quase clichê, paralisando a lógica.
Até nosso diálogo encaixar com a precisão da última peça que, de repente, resolve o quebra-cabeça que eu montava há anos.
Até o riso se alinhar, não como ponteiros de um relógio, mas como a sinfonia gravitacional que rege a dança dos planetas.
Nossas conversas são uma partida de Ping-Pong Poético com Stand-Up Comedy. Ora estamos no debate fervoroso, evitando que a “bolinha” da ideia caia; ora estamos rindo como se tivéssemos presenciado a grande epifania cômica do universo.
Ela é o teorema mais fascinante que já tentei decifrar. Me divirto na nomenclatura sutil de suas expressões. Já aprendi que um ligeiro levantar de sobrancelhas não é só um “UAU!”, mas a interjeição reservada ao que lhe toca a alma. Já sei que, quando seus olhos baixam e a boca se abre no limiar de uma ideia, está ponderando o silêncio, guardando um pensamento que teme ser avassalador. Mesmo assim, invariavelmente, quando decide compartilhá-lo, o efeito é sempre o mesmo: me surpreender ou me levar à gargalhada que cura.
Ela é um mosaico de emoções raras, sabores inexplorados e surpresas contínuas. A cada toque, a cada revelação, não apenas me surpreende — desperta o “eu” que estava adormecido em mim.
Com ela, aprendi sobre predileções que desconhecia. Descobri o quanto sou afeito ao toque, o quanto ele é a unidade do meu afeto. Assim como o seu café: um sabor que transcende o óleo de coco; há um ingrediente ali que ainda não sei nomear, mas que é um carinho líquido, um abraço quente logo pela manhã.
Ao lado dela, sei que sou a versão que almeja o melhor, o rascunho que busca a perfeição. Nossos instantes mais sublimes são aqueles em que estamos esparramados na horizontal da vida, no sofá, transitando do ínfimo ao cósmico.
Há momentos em que ela é meu ponto de equilíbrio, o zero absoluto; e há momentos em que aciona o interruptor para mergulhar na profundidade da existência — assim, sem pedir licença.
E por isso me sinto como uma álgebra desorganizada, uma bagunça caótica buscando direção. E tenho descoberto que viver nesse desarranjo é uma doçura rara. Desde que ela seja a minha constante, todo o resto pode ser incógnita.
Jeff Ribeiro, poeta e escritor
