Pelo direito de existir…
O Brasil vive, há anos, um paradoxo doloroso, marcado por histórias de luta e resistência, mas que ainda registra algumas das mais alarmantes taxas de violência contra mulheres no mundo. Entre as diversas faces dessa violência, o feminicídio — o assassinato de mulheres por questões de gênero — desponta como uma chaga social que exige olhar crítico, ação constante e profunda transformação cultural.
Nos últimos meses, casos chocantes repercutiram nacionalmente: um homem que atropelou a ex-companheira e a arrastou pelo asfalto, causando a amputação de suas pernas; outro que assassinou a ex-namorada em seu local de trabalho. Esses episódios não são exceções, mas exemplos da brutalidade que muitas mulheres enfrentam diariamente, frequentemente cometida por parceiros ou ex-companheiros.
O feminicídio é um crime hediondo, incluído no Código Penal desde 2015. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil tem uma das maiores taxas do mundo, com 4,8 feminicídios para cada 100 mil mulheres.
Esse crime não é um evento isolado. Ele representa o extremo de uma violência que começa muito antes do ato fatal: nos comentários que desvalorizam, nas piadas que reforçam a desigualdade, nas instituições que frequentemente falham em proteger. Cada número nas estatísticas é uma vida interrompida — mulheres com histórias, sonhos e futuros destruídos pela lógica de um sistema que ainda trata a vida feminina como menos valiosa.
As consequências desse cenário recaem diretamente sobre as mulheres brasileiras. A sensação de insegurança se torna parte da rotina: ao caminhar sozinhas à noite, ao rejeitar um convite insistente, ao tentar sair de um relacionamento abusivo. Há uma vigilância constante — física e emocional — que limita a liberdade e desgasta a paz de espírito. A violência de gênero restringe espaços, oportunidades e direitos, impondo medo onde deveria existir igualdade.
Mas os impactos ultrapassam a esfera individual. A sociedade inteira paga um preço alto: normalizar a violência corrói o tecido social, enfraquece vínculos comunitários e perpetua ciclos de dor. Famílias e comunidades carregam marcas profundas. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o trauma reverbera por gerações.
Além disso, o feminicídio expõe desigualdades estruturais — no acesso à justiça, à educação, ao mercado de trabalho e aos serviços de apoio. A violência de gênero é sintoma de um sistema que ainda não reconhece plenamente o valor da igualdade.
A solução começa pelo reconhecimento e pela ação coletiva. É fundamental que todos os setores da sociedade — famílias, escolas, instituições públicas, mídia e cidadãos — se comprometam com uma mudança cultural capaz de eliminar a violência de gênero. Isso envolve educação igualitária, políticas públicas eficazes, apoio às sobreviventes, responsabilização rigorosa dos agressores e, acima de tudo, o fim da indiferença.
Coincidindo com esse debate, a HBO Max lançou em novembro a série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, inspirada no podcast Praia dos Ossos, que relembra o assassinato de Ângela Diniz nos anos 1970. Na época, o feminicídio sequer era tipificado como crime, e o assassino confesso, seu namorado Doca Street, teve a pena reduzida com base na controversa tese da “legítima defesa da honra”, declaração que só foi considerada inconstitucional pelo STF em 2023.
O caso se tornou um marco do feminismo brasileiro e mobilizou protestos em todo o país sob o lema “Quem ama não mata”.
Celebrar a vida das mulheres vai muito além de lamentar suas perdas. É construir um Brasil onde cada mulher possa viver, amar, trabalhar e sonhar sem medo — um país que garanta a todas o direito de existir plenamente.
Erica Gregorio jornalista, socióloga, escreve periodicamente em seu blog ericagregorio.com
