Rita da Rádio: “sexo frágil é uma ova”

Aos 78 anos, Rita de Cássia segue sendo uma daquelas figuras impossíveis de esquecer. Voz marcante, personalidade forte e uma história que atravessa gerações, ela construiu uma trajetória de quase seis décadas no rádio — e muito além dele.

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Leitora assídua até hoje, Rita de Cássia Campos Vasconcellos carrega na bagagem uma vida de superação, trabalho e coragem. Uma mulher que desafiou seu tempo, mas que, curiosamente, sempre se descreveu como tímida fora dos microfones.

Raízes humildes e responsabilidade precoce
Filha mais velha de nove irmãos, Rita cresceu em uma família simples, no início da Rua Marechal Deodoro, no centro da cidade. A realidade era dura: muitas vezes havia comida apenas para o almoço e o jantar.
“Quando achava uma panela de cobre no meio dos recicláveis, era uma alegria”, relembra.

Desde cedo, assumiu responsabilidades dentro de casa, ajudando no sustento da família. Sua maior referência feminina foi a mãe Benedita, a quem descreve como uma mulher sábia e inteligente, mesmo sem estudo formal.

Na vizinhança, fez amizade com a radialista Angela Abreu — um contato que, anos depois, pareceria quase um prenúncio do destino. Atualmente, as duas trabalham na mesma emissora.

Ainda jovem, trabalhou como babá e empregada doméstica. Em uma ocasião, foi trabalhar em uma pensão no litoral. A experiência foi dura. “Trabalhava quase como escrava”, conta. Uma grave infecção de ouvido a obrigou a voltar para casa — e acabou mudando completamente o rumo da sua vida.

O início inesperado no rádio
Aos 17 anos, enquanto trabalhava como doméstica, tomou uma decisão que mudaria tudo. Foi até a Lanchonete Beluci, onde costumavam estar os donos da Rádio Convenção, entre eles o cineasta Anselmo Duarte e Horlimar Pires de Almeida.

O motivo era simples: seu pai Francisco havia pintado um quadro de um personagem de Anselmo. Mas a simpatia da jovem chamou atenção. Ela foi convidada para um teste na rádio, às 21h.

Passou o dia treinando datilografia para não errar. No teste, mesmo com dificuldades, foi aprovada.

Começou como telefonista, anotando recados dos ouvintes. Até que um dia surgiu a oportunidade de falar no ar. Pediram para ela apenas anunciar a hora e tocar músicas — mas o momento se tornou histórico.

Naquele dia, o então governador Laudo Natel visitava Itu e foi até a Rádio Convenção (localizada onde hoje funciona o Círculo Italiano). Rita abriu os microfones e conduziu a participação. No dia seguinte, ganhava seu próprio programa. A vinheta era inconfundível, com a voz de Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda…”

Nascia ali o bordão que marcaria sua vida. Era dia 1º de maio, e neste ano completam 59 anos de profissão.

Quase 60 anos de história
Rita permaneceu na Rádio Convenção por 49 anos e 9 meses — praticamente meio século de dedicação. Também trabalhou por cerca de 40 anos no Jornal Periscópio. Foi desligada das duas funções pouco antes de completar marcos históricos, no ano de 2016.

Na rádio, dois meses depois do desligamento da Convenção, ingressou na Rádio Nova Itu FM, onde está até hoje.

Hoje, segue ativa: escreve coluna social no Jornal Federação e apresenta, ao lado da filha, o programa “Dose Dupla”, que acabou de comemorar 4 anos e vai ao ar toda sexta-feira, com três horas de duração.

Política e o bordão que virou marca
Rita também tentou a vida pública. Foi candidata a vereadora quatro vezes, em diferentes períodos políticos da cidade, incluindo gestões de nomes como Olavo Volpato, Lázaro Piunti e Oswaldo Sonsini.

Sempre com o mesmo slogan estampado nas camisetas: “Sexo frágil é uma ova.”

Na última tentativa, recebeu 450 votos. Ficou perto. “Ela tinha vergonha de pedir voto”, conta a filha, Sarah. Apesar da enorme popularidade, Rita nunca quis misturar a imagem pública do rádio com a política.

Amor, família e legado
A história de amor também começou cedo. Ainda criança, conheceu o menino que vivia implicando com ela — e que, anos depois, se tornaria seu marido.

O casamento aconteceu na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, em abril de 1980, e foi transmitido pela Rádio Convenção, pelo radialista Eduardo Balás.

Ela lembra de Espedito como um homem romântico, apaixonado por música e poesia. “Nos amamos muito!”, diz. Rita é viúva desde 2019.

O maior amor

Mas é impossível falar de Rita sem falar de sua filha, Sarah. “O amor da minha vida”, define.

As duas dividiram o mesmo quarto por 27 anos. “A gente conversava até dormir”, lembra Sarah. O pai trabalhava em outras cidades e passava longos períodos fora, o que fortaleceu ainda mais o vínculo entre mãe e filha.

Hoje, a força feminina segue na família com a neta Maria Rita, além do neto Otávio. Sarah também construiu sua própria família ao lado do marido, Julio.

Um novo capítulo
No Natal de 2023, durante uma reunião em família, Rita passou mal enquanto cortava um rocambole de carne. Sofreu um infarto e enfrentou uma longa internação, alternando entre UTI e quarto, com entubações e outras intercorrências. A internação durou de 24 de dezembro até 8 de fevereiro de 2024.

Desde então, enfrenta algumas limitações na memória — motivo pelo qual Sarah acompanha de perto sua rotina e ajuda a resgatar lembranças. Mesmo assim, a essência permanece intacta.

A voz pode até ter diminuído o ritmo, mas a história continua ecoando — forte, firme e inspiradora. Porque, como ela mesma sempre disse: “Sexo frágil é uma ova.”

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