Um espelho desconfortável da sociedade
Nos últimos anos, séries sobre assassinos psicopatas, como Tremembé e Dahmer, ou produções que retratam o universo do crime e das atividades ilícitas, como Donos do Jogo, têm dominado o topo dos rankings nas plataformas de streaming. Esse interesse massivo, que atravessa públicos e gerações, revela mais do que simples entretenimento: aponta para uma curiosidade profunda — e, por vezes, inquietante — sobre os limites da natureza humana, da moralidade e do poder.
O fascínio não vem apenas da violência explícita ou das tramas sombrias, mas, sobretudo, do desconforto provocado. Há algo na figura do psicopata que desafia nossa compreensão de humanidade: como alguém pode existir sem empatia? Como o mal pode se manifestar de forma tão calculada? Ao assistir a essas histórias, o espectador transita entre o medo e a curiosidade, entre a repulsa e a necessidade de entender. É como observar um abismo e, ao mesmo tempo, tentar decifrar o que existe dentro dele.
Séries como Donos do Jogo também revelam outro elemento: a atração pelas engrenagens do poder informal. Ao mostrar o funcionamento de organizações criminosas, seus códigos e hierarquias, essas narrativas expõem um mundo paralelo — perigoso, mas repleto de estrutura e estratégia. Para muitos, isso desperta um interesse quase antropológico: é a chance de observar, à distância segura, a lógica que sustenta realidades às quais nunca teriam acesso.
Mas há, também, um reflexo social inegável. Em uma realidade marcada por desigualdades, sensação de insegurança e crises de confiança nas instituições, essas séries expõem tensões reais. Elas funcionam como uma lente que amplia o que preferimos ignorar: a violência estrutural, a falência de certos sistemas, a complexidade ética que nos rodeia. E, paradoxalmente, é justamente isso que nos prende à tela.
Talvez, no fundo, o sucesso dessas produções não esteja no horror das histórias, mas na possibilidade de confrontar, sem riscos, aquilo que nos assusta — em nós mesmos e na sociedade. O fascínio, então, não é pelo psicopata ou pelo criminoso, mas pelo que suas histórias revelam sobre os limites da humanidade, da justiça e da convivência. Ao assistir, não buscamos glorificar a violência, mas compreender os contornos inquietantes do mundo em que vivemos.
Erica Gregorio — jornalista, socióloga, escreve periodicamente em seu blog ericagregorio.com
