Uma mulher de princípios
Éden A. Santos
Terceira Parte
XXII
Tempo, aos olhos dos homens é um companheiro inescrutável. Para eles o passado foi efêmero e um relâmpago, o futuro é impenetrável, distante e dramático e o presente é instantâneo e sem duração, sendo apenas o elo entre passado e futuro. Não é bem assim para os apaixonados com relação ao tempo. No passado repousam as reminiscências do encontro de suas almas, o presente é não só para ser desfrutado, mas para cogitar das suas aspirações conjuntas, e no futuro depositam todas as suas esperanças de realização dos seus sonhos. Não há o que temer porque só há certezas. Assim era o casal Sasha e Guilherme. O casamento deles foi realizado numa manhã de domingo ensolarado, na Igreja Ortodoxa frequentada pela família de Sasha, e em cujas instalações os convidados foram recepcionados numa festa essencialmente russa, exceto pela duração, pois a tradição é de que a festa dure no mínimo dois dias. Já ocidentalizado, Mikhail optou em oferecer uma festa típica, com danças e músicas folclóricas, porém num único dia O almoço foi regado a cervejas, vinhos tintos e brancos, mas principalmente com vodka importada da melhor qualidade. O prato principal era por demais conhecido, mas servido à moda russa. Tratava-se do estrogonofe que entre as famílias russas é servido no meio de um pão tipo italiano. Sasha casou-se num belo vestido branco, porém com uma inovação, era curto, contrariando a tradição dos longos, dois dedos abaixo do joelho, sapatos de saltos altos e um buquê de flor de laranjeira. Um tênue véu cobria seu rosto, discretamente maquiado, que não ocultava a felicidade que ela desfrutava. Guilherme, também vestido despojadamente, trajava um terno preto com um cravo branco na lapela, uma gravata cinza escura e sapatos pretos. Por volta das 4h da tarde, o casal que já tinha suas malas arrumadas, em meio a uma enorme alegria dos convidados que dançavam e improvisavam até declamações, retiraram-se para, tomando o carro de Guilherme, se dirigirem à uma praia remota onde passariam a lua de mel. Ambos, independentes, dispensaram as ofertas dos progenitores e padrinhos de uma viagem ao exterior. “Elas virão mais tarde!”, argumentaram. Era o mês de janeiro. No retorno, agora com afazeres domésticos mais pronunciados, Sasha procurou, mentalmente, planejar sua vida de academia e a vida no lar. O sonho da Sorbonne fora arquivado por Guilherme. Empregado no departamento jurídico de uma grande organização, com salário não desprezível, o casal vivia o encantamento de um amor sincero e inexprimível. Sasha concluiu sua graduação em direito e ao invés de planejar qualquer curso de pós-graduação, preparou-se para o concurso da magistratura como sempre sugeriu Guilherme. Mergulhou nos livros e depois de seis meses realizou as provas do concurso e dez meses depois, teve a alvissareira notícia de que fora aprovada em primeiro lugar. Assim, pode ela escolher a cidade e local para assumir o cargo. A partir daí, o casal, como planejado, teve o primeiro filho, que para uma certa frustração era filha. Deram-lhe o nome de Gisele. No ano seguinte mais uma gravidez e nasceu-lhes outra filha, Candice. Numa terceira gravidez, outra filha, Francine. O casal resolveu parar por aí, já que o Hamilton teimava em não vir. A família era muito feliz. As crianças com saúde, demonstravam ser talentosas desde a primeira escola. Dez anos de casamento, Guilherme dividindo com Sasha os afazeres domésticos, especialmente nos cuidados com as filhas a quem devotava uma afeição descomunal, foi protagonista de uma infausta ruptura. Foi seduzido por uma colega de departamento recém chegada ao setor. Jovem, bonita e sedutora, a jovem colega o levou a perder a cabeça e o juízo. Sasha vinha notando alguma diferença no comportamento do marido. Esquivo, diminuíra as atitudes afetuosas com ela. “Sem dúvida, alguma coisa está acontecendo.” Estrategicamente não o pressionara. “Será que havia outra mulher?” – seu sexto sentido lhe indicava. “Mas, e as juras de amor eterno? E as filhas, pelas quais ele tinha tanto amor?”
XXIII
Há tempos que vem sendo desmistificada a tese de que as mulheres são do sexo frágil e serem relegadas, historicamente, a um papel secundário ou pernicioso na historiografia da humanidade. Essa lenda maledicente começa por Eva no paraíso, passando por Helena que causou uma guerra entre gregos e troianos, segundo a mitologia grega, chegando à Cleópatra na história antiga. Jesus Cristo começa a mudar o panorama do papel da mulher, sobressaindo, nesse sentido, o diálogo coloquial entre ele e as irmãs Marta e Maria. Porém Paulo, em 1 Coríntios recoloca a mulher num papel secundário, convenhamos contudo, que esse era o olhar da cultura de então. Chegando à idade média o nome relevante, sem dúvida alguma, foi Joana D’Arc. Desde os grandes filósofos gregos como Aristóteles que radicalizava, por exemplo, ao afirmar que a mulher constitui uma monstruosidade da natureza, inevitável, porém, para a conservação da espécie. Ele se reabilita, se assim se pode dizer na obra Política, quando engrandece a família que, segundo ele, existiria mesmo que a sociedade inexistisse, ao se referir às tarefas e virtudes familiares da mulher. Dos filósofos gregos, Aristóteles é a única exceção sobre o tema, porque entre outros, Platão defendia que homens e mulheres deveriam ter acesso igualitário à educação. Hoje, duas lutas que vêm sendo travadas e vencidas, graças aos seus próprios esforços, são o racismo e a feminifobia. Estamos no século XXI e as mulheres só fazem reafirmar seus dotes. Com Sasha não foi diferente. Guilherme resolveu sair de casa enquanto não resolvia seu impasse moral, sentimental e social. Sasha, não se deu por achada e, muito embora a decisão de Guilherme tenha lhe causado um impacto indescritível, procurou vedar as lacunas que a aquela decisão causara. De um lado tentar explicar para as filhas a ausência do pai sem levá-las a odiá-lo. De outro lamber as próprias feridas da decepção, do amor próprio ferido e da manutenção da rotina familiar, além da manutenção financeira do lar, pois Guilherme simplesmente deixara de comparecer na sustentação das despesas. “Santo Deus, o que aconteceu com o meu amor? Não era possível que alguém, por causa de um rabo de saia, pudesse ser tão pusilânime. Havia algo de muito errado e não era com ela, que sempre atendera aos caprichos do esposo. Sua dedicação, fidelidade e desprendimento, além do seu infinito amor, não mereciam aquela resposta de quem jurara mais de uma vez, um amor eterno.” A família de Sasha ficou atônita. Sua mãe foi às lágrimas, seus irmãos à revolta e seu pai, conhecedor da alma humana procurou garantir e dar segurança à filha, a ponto de propor a ela um retorno ao lar paterno. A comunidade russa e os membros da igreja onde se casara ficaram estupefatos. Sasha, além de forte, tinha bem claro que a responsabilidade era toda dela. A escolha do marido tinha sido sua, portanto se houvera um erro, esse erro era todo seu e ninguém deveria pagar por isso. As primeiras semanas foram terríveis. Trabalho, filhas, escola, administração da casa com todas suas nuances, coração vazio e amargurado, havia que ter fibra, abnegação e um alto grau de princípios. Lentamente Sasha foi organizando sua vida. Emagrecera alguns quilos e buscou na ioga um lenitivo para sua vida. Não satisfeito em sair de casa, num dos seus telefonemas para as crianças, Guilherme concluiu sua obra mal articulada: propôs o divórcio. “A separação tinha sido um golpe e tanto, e agora com o divórcio meu mundo desmoronou. Ainda tinha alguma esperança, porém com essa decisão, o final estava determinado.” – pensou Sasha. Não se opôs e algum tempo depois, ambos, diante do juiz confirmaram a decisão de uma separação amigável. Sasha acompanhou a assinatura de Guilherme com um misto de inexprimível desencanto e de ruína dos seus mais caros sonhos, sobretudo porque ele a fez com a naturalidade de quem toma um cafezinho. Consciente de sua condição de divorciada mergulhou no trabalho e na educação de suas filhas.
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