Uma mulher de princípios
Éden A. Santos
XXIV
Passaram-se alguns meses, durante os quais Sasha não deixou de ser assediada por colegas e conhecidos. Ela resistiu a todas investidas. Seu conceito de casamento era bíblico “Até que a morte os separe.” Dissera o sacerdote na cerimônia de seu casamento. Sentada em sua sala, examinando alguns processos, seu celular vibrou. Não ia atender, mas pensando bem que poderia ser uma chamada de uma das meninas olhou a tela. Seu coração teve um solavanco, era Guilherme. Quase nunca ele ligava durante seu horário de trabalho e raramente no celular. Ligava para falar com as crianças e sempre no telefone fixo. “Alô!” “Sasha, é Guilherme.” “Sim, eu sei.” “Preciso falar com você.” “Pois não, pode falar.” Respondeu com certa indiferença na voz, porque no peito palpitava outro sentimento. “Não pode ser por telefone. Não podemos nos encontrar?” “Pode ir à noite, em casa. As crianças vão gostar.” Dificultou propositadamente, porque conhecendo Guilherme como conhecia, sabia haver uma razão de muita importância e ela desconfiava do que poderia ser. “Minha preferência seria longe dos olhos das crianças.” “Você tem alguma sugestão?” “Poderíamos jantar naquela nossa cantina?” Maldosa e sentindo que Guilherme estava um tanto agoniado disse “Não sei se gostaria de voltar a ela depois de tantos anos ausentes e relembrar de momentos que não quero lembrar.” Essa resposta era para medir a temperatura de até onde ele estava disposto ir. “Então, escolha outro local, mas pode ser um jantar?” Sasha jogou mais uma cartada. Conhecia o grau de ansiedade do ex. “É urgente?” “Sim! Sim! Gostaria que fosse hoje.” “Estou com saudades da cozinha francesa. Que tal?” Sasha já tinha convicção do assunto. “OK! Onde eu a apanho?” “Vou escolher um bom restaurant, mas vou com meu carro. Mando-lhe um WhatsApp mais tarde, com minha escolha. Tenho, primeiro que ir em casa acomodar e explicar para as crianças o porquê e com quem estarei jantando.” Disse com um sorriso nos lábios que Guilherme, evidentemente não viu. “Sim! Sim! Tudo bem! Fico aguardando!” Respondeu com um semblante alegre. O jantar transcorreu num clima de muita amabilidade, sobretudo por parte de Guilherme, não obstante ele não tenha dado aquela habitual gargalhada. Sasha aguardava, ansiosa, quando ele abordaria a razão pela qual estavam ali. Após comerem o prato principal, sorvendo goles de um vinho tinto, Guilherme escorregou sua mão sobre a de Sasha que estava pousada sobre a mesa. Ela não moveu sequer uma pálpebra, constatando tudo que pressagiara. Guilherme estava de volta, para felicidade dela e das amadas filhas. “Sabe Sasha, às vezes a gente calcula e confunde a aparência da verdade com a própria verdade, advindo daí o erro. Errei, e errei feio! Você me aceitaria de volta?” “Guilherme, eu sempre acreditei no teu caráter e que você nunca mentira quando dizia que me amava. Aguardei pacientemente sabendo que mais dia, menos dia, você voltaria.” “Você me perdoa?” “Claro, muito embora digam por aí que quem perdoa só é o Senhor Deus” – disse sorridente. Aguardando a sobremesa Guilherme ousou uma pergunta “Nesses meses, você chegou a conhecer alguém?” “Guilherme, você não me conhece bem! Você se lembra do juramento que fizemos no pé do altar? Quantas promessas foram feitas? Eu as cumpri todas integralmente. Sempre estive casada com você e minha fidelidade foi e será eterna.” “Bem, eu sei que falhei, mas como disse, a verdade muitas vezes é encoberta pelas aparências. Estou pronto para reparar tudo de errado que fiz, o sofrimento que te causei e às crianças.” “Elas ficarão muito, mas muito felizes mesmo.” “Posso voltar amanhã mesmo?” “Claro! Teus armários e gavetas, bem como os teus livros e até tua escrivaninha estão do jeito que deixou, além de muitas mudas de roupa.” E assim, aconteceu a reconciliação do casal. Voltaram ao juizado para desfazimento do divórcio e tocaram a vida, retornando aos dias mais felizes que a família de cinco membros teve. Guilherme com sua banca de advogados bem sucedida e Sasha na magistratura, continuaram suas carreiras profissionais bem sucedidos e, agora, altamente motivados. Desnecessário falar da alegria de Gisele, Candice e Francine.
XXV
– Boa tarde, doutora! Tudo bem com a senhora?
– Sim Ricardo! Tua esposa melhorou?
– Sim, doutora! – sobraçando uma pilha de processos -. Mas, passei um susto. A senhora me ajudou muito, me tranqüilizando e me orientando. Eu tenho uma cunhada que perdeu o esposo e sei bem o que é uma viuvez. A solidão, o amor e o companheiro perdidos fizeram dela uma pessoa desiludida que luta muito para sobreviver. Quando se ama de verdade, a separação seja ela pela morte, seja pela decisão de um dos cônjuges, faz da parte sobrevivente um guerreiro valente, todavia sem armas ou escudos. A pessoa tem que se virar sozinha. Só depende de si, pois não há palavras que consolem tal dor. O máximo que se pode fazer é prestar solidariedade, porém não sei se isso ajuda.
– Eu compreendo o que você está falando Ricardo. É difícil recolher os cacos, mas é necessário que se tenha estrutura e que não desanime. As mulheres são mais preparadas para essas travessuras do destino.
– Sabe doutora, sou muito invejado pelos meus colegas por tê-la como chefe.
– Ricardo, isso é questão de ponto de vista. Não sou nada diferente de meus colegas. Converso com eles na nossa sala e eu os tenho na maior consideração.
– Doutora, parte deles, entretanto, é muito arrogante. Não são como a senhora, que sem dúvida alguma ocupa um lugar de primazia entre seus colegas e todos a respeitam. Porém, não se comportam assim com seus subordinados.
– Às vezes Ricardo, os juízes se sentem pressionados pelos processos que têm que julgar. Nós temos uma responsabilidade enorme, sobretudo para sermos justos e não punirmos inocentes e inocentarmos culpados e essa preocupação os deixa circunspectos e taciturnos. Isso pode levar, às vezes, a respostas e atitudes indigestas e malcriadas. .
– Só que a senhora não se comporta e nem age sob esses estigmas.
– Meu caro Ricardo, como diz o nordestino sabiamente, não se avexe. Vamos ver o que nos espera. Passe-me a pauta de hoje.
Quando Sasha penetrou na sala do júri, como em outras tantas ocasiões, não havia apenas a magia da toga, mas principalmente sua figura física que se impunha e causava admiração. Naquela tarde não foi diferente. Sentando-se em sua poltrona de espaldar alto, acomodou-se, ajustando a toga e sua saia. Feito isso, olhou ao derredor. O promotor do Ministério Público era seu conhecido. Os advogados de defesa eram também conhecidos e sempre defendendo causas da turma do tráfico. Examinou a banca de jurados que tinham seus olhos voltados para ela. Volveu seu olhar para o escrivão que ordenava os processos em sua mesa e só então, mirou o réu. “Lá estava Pablo Herrera o homem que em circunstâncias dramáticas poupara a vida de seu irmão, para algum tempo depois matá-lo sem dolo é bem verdade, mas matara numa coincidência trágica, desmentindo o provérbio popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Pablo Herrera respondia pela acusação de ter assassinado dois infelizes membros de uma facção criminosa inimiga. Claro, ele não a identificou, porém estava ali, à sua mercê, aquele bandido que não abandonara o crime. Já estava com seus cabelos grisalhos, magro com covas nas faces, era apenas uma pálida imagem do que fora nas fotos com Serguei. Aquela era uma oportunidade única para vingar seu amado irmão, todavia isso era fazer justiça com as próprias mãos, além do que sempre levara à risca seu juramento quando assumiu a magistratura, “Juro cumprir a Constituição e leis do país…”,quando, então, decidiu abdicar daquele julgamento, por questões exclusivamente de princípios. “Senhores doutores promotores do Ministério Público, senhores doutores advogados de defesa, senhores jurados e demais envolvidos neste julgamento, quero declarar que me sinto impedida para julgar o presente caso, por razões de foro íntimo.” Incrédulos, todos, com olhares espantados, ficaram sem saber o que fazer. “Portanto, dou por encerrada esta sessão. Boa tarde!”. Levantando, retirou-se.
FIM
(Semanalmente, o Jornal de Itu publicou este romance por capítulos. Para ler os anteriores, clique aqui)

Hoje é dia 24/01/2021, e estamos com os capítulos da novela “Uma mulher de princípios” do dia 13/01/21, o autor não publicou mais capítulos?
Esses capítulos já li, e lamento ter de citar isso, porque já houve um episódio semelhante, agradeço se houver correção dos mesmos.