A controversa confiança

Atualmente estamos vendo sugir, em determinados contextos de instabilidade política e social, uma necessidade quase instintiva de encontrar figuras que representem ordem, justiça ou segurança. Foi assim que nomes como Sergio Moro, durante a Lava Jato, e Alexandre de Moraes, no período recente do governo Bolsonaro, que passaram a ocupar um lugar de destaque no imaginário coletivo. Para muitos, eles deixaram de ser apenas autoridades exercendo suas funções e se tornaram ícones diante de crises complexas.

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No entanto, essa admiração intensa frequentemente ultrapassa o reconhecimento legítimo e se transforma em idolatria. Ao colocar essas figuras em um pedestal, cria-se a ilusão de que suas decisões são sempre corretas e suas atitudes, incontestáveis. Esse tipo de percepção simplifica a realidade e ignora um ponto fundamental: de que são pessoas inseridas em estruturas institucionais, sujeitas às mesmas limitações, pressões e falhas que qualquer outro ser humano.

Com o tempo, essa idealização tende a se chocar com a realidade. Decisões controversas, interpretações questionáveis ou até mesmo condutas equivocadas passam a ser analisadas com mais rigor. É nesse momento que se torna evidente que, apesar da imagem construída, essas figuras não são infalíveis. Elas também podem cometer erros, agir de forma discutível e, eventualmente, precisar responder por suas ações dentro dos mecanismos legais e democráticos.

Esse processo revela a importância de manter o senso crítico, mesmo diante de lideranças que despertam admiração. Reconhecer méritos não exige ignorar falhas. Pelo contrário, uma sociedade madura é aquela que consegue valorizar o papel de suas instituições e de seus representantes sem transformá-los em figuras intocáveis, entendendo que responsabilidade e fiscalização devem existir justamente porque ninguém está acima da possibilidade de errar.

Erica Gregorio jornalista, socióloga, escreve periodicamente em seu blog ericagregorio.com

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