Uma mulher de princípios
Éden A. Santos
XIX
Na semana seguinte…
– Guilherme, meu pai é profundamente conservador. Falei do nosso namoro e ele já fez algumas observações. Na verdade fiz uma greve de fome para que ele concordasse pelo menos em recebê-lo. Depois de um dia que não compareci à mesa para almoçar e jantar, ele me procurou no meu quarto e procurou estabelecer um diálogo. Sentou-se aos pés da minha cama e acariciou meus pés. “Sabe filha, além de ser nossa caçula és a única mulher entre os meus amados filhos. Você ocupa um lugar especial não só no meu coração, como também de tua mãe e teus irmãos. Eu sempre soube que esse dia ia chegar, mas não esperava que agora, mesmo porque, inconscientemente, ia jogando para o futuro a hora da verdade. Quero ser razoável, entendeu?” “Sim papa,entendo! Mas, peço-lhe que dê uma oportunidade ao Guilherme e o conheça.” “Tudo bem, mas há algumas questões que precisamos conversar. Antes porém quero saber se você está apaixonada.” Respondi que sim. Aí fez um rosário de considerações que aparentemente nada tinham a ver com nosso namoro. Falou do amor dele por mim, da minha importância para a família. Recordou a minha infância e de fatos pitorescos. Enfim, no bom sentido, foi quase um processo de chantagem emocional.
– Sasha, acho razoável que ele aja dessa maneira. Pelo pouco que você me contou seu Mikhail é um pai extremoso e preocupado com seus filhos e sua família. Assim são os russos. Apesar de aparentarem uma dureza em suas atitudes, eles são profundamente sentimentais. Além do mais a psicologia explica.
– Como você sabe isso?
– Basta ler um pouco de Dostoiévski e Tolstói.
– E você os leu?
– Estou falando!
– Por exemplo!
– Irmãos Karamazov, Crime e Castigo e Guerra e Paz.
– Hum! Então conhece mesmo a alma dos russos.
– Bem! Qual é a primeira exigência, então?–Soltando suas costumeiras gargalhadas.
– Não vejo graça nenhuma. Ele quer te conhecer e saber o que você quer da vida e, certamente, dizer-te com todas as letras que a filha dele tem que ser respeitada e não pode ser objeto de passatempo.
– Tudo bem! Será uma conversa a dois, três, quatro ou dez?
– Guilherme você está fazendo troça?
– De modo algum. Estou só fazendo uma pergunta.
– Para falar a verdade acho que será a três. Nós dois e ele.
– Calma, meu amor. Vou conquistar o sogro no primeiro encontro. Basta você me dar umas dicas –. Na verdade Guilherme estava tão ou mais tenso que Sasha. Procurava apenas mostrar uma tranquilidade inexistente unicamente para aquietá-la.
– Por exemplo…
– Ele gosta de política? De futebol? Qual o seu clube? Religião não. Isso não se discute. Pratos preferidos, etc. etc.
– Meu papa é um bom papo e no meu modo de ver um homem com uma cultura acima da média. Porém, antes de tudo, é um exemplar chefe de família e saboreia as tradições da sua pátria. Por certo te fará uma porção de perguntas e nos dará algumas regras.
– Ok! Estou pronto para a sabatina!
– Você quer parar de fazer brincadeiras!
– Tudo bem, amor! Vamos lá!
Foi acertada a visita de Guilherme para o sábado seguinte, às 16h.
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