Uma mulher de princípios

Éden A. Santos

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XX

            Logo cedo Guilherme foi à sauna que frequentava com alguma assiduidade para relaxar, aparar a barba e até fazer uma massagem facial. Ligou para Sasha que estava hipertensa. Procurou tranquilizá-la “Fica em paz, vai dar tudo certo. Nosso amor é o nosso protetor”, disse. Almoçou com seus pais aos quais relatou o que o esperava. Como era um sábado, Guilherme calculou que o trânsito estaria tranquilo. Estimou o tempo necessário para chegar pontualmente, até a residência de Sasha.

            Guilherme em seu carro nem precisou buscar o número da casa. De longe avistou Sasha que o aguardava no alpendre da casa. Por mais seguro e articulado que fosse, o rapaz se encontrava, naquele momento, na perspectiva de estar frente a frente com o senhor Mikhail, um tanto ansioso e preocupado, como era de se esperar. Afinal, como se sabe, era sua primeira experiência e nem sequer conhecia casos semelhantes de amigos porque isso já não fazia parte dos atuais costumes sociais.

            Sasha após trocar um selinho com Guilherme, deu-lhe a mão. “Nossa, como está gelada sua mão”! “O que você acha? Nunca me deparei com uma situação semelhante”. “Tranquilize-se. Vai dar tudo certo”. “Eu sei, mas sabe como é. Trata-se da primeira vez”. “Tudo tem uma primeira vez. O beijo, o namoro, o sexo”. Retrucou dizendo isso olhando maliciosamente para a jovem. A casa de Sasha era enorme, pois abrigava nada menos que nove pessoas. Mas, era uma casa comum. Ela, conduzindo o namorado, ultrapassou a porta de entrada e introduziram-se numa sala logo à direita, onde havia uma pequena biblioteca. Nela havia um sofá e à sua frente duas poltronas, com uma mesinha de centro entre ambas. Sentaram-se no sofá. Conversavam trivialmente, quando surgiu à porta a figura de Mikhail. Era uma pessoa que impunha respeito não só pela sua estatura, próxima da do Guilherme, isto é, ao redor de 1,80m, mas também pelos olhos azuis, semblante misto de serenidade e dignidade. Cabelos loiros raleando com entradas profundas. Estes detalhes mais um abdômen levemente saliente compunham a respeitável figura do pai de Sasha. As apresentações foram cordiais, porém cercada de pequenas hesitações sobretudo de Sasha. Sentaram-se. Incompreensivelmente, alguns segundos decorreram sem que sequer uma palavra fosse dita de parte a parte, até que Mikhail quebrou o silêncio. “Sim, estamos aqui para ouvir alguma coisa, não”? Indagou serenamente. Sasha gelou. “É verdade. Julguei que o senhor fosse dizer algo antes. Por isso me calei”. “Não senhor. Estamos aqui para ouvi-lo.” Mikhail não estava facilitando a vida de Guilherme. “Senhor Mikhail, conheci Sasha na universidade. Acho que o senhor sabe disso”. “Sim senhor. Sei”. “Pois gostaria de dizer para o senhor que ela me encantou logo que a vi. E esse encantamento aumentou quando conversamos pela primeira vez. Posso dizer ao senhor, seguramente, que amo sua filha. Quero namorá-la e pretendo, ao terminar meus estudos, casar-me”. “O senhor está no último ano da faculdade, não”? “Sim senhor”. “Então vão se casar o ano que vem”? “Não seu Mikhail, pretendo fazer um curso de pós-graduação na Sorbonne, na França. Isso deverá levar dois anos. Mas, com o seu consentimento gostaria de noivar ainda este ano e o casamento seria após a conclusão do curso”. “E do que vocês vão viver, já que o senhor voltará titulado, mas sem trabalho”? “Seu Mikhail com o diploma de doutorado da Sorbonne nas mãos estarei, certamente, empregado numa grande banca da cidade”. “Nesse meio tempo enquanto estuda, como estará sendo conservada essa chama do amor que o senhor confessa ter por Sasha”? “Estarei vindo regularmente ao Brasil em toda oportunidade possível”. “Muito bem! Sasha o escolheu. Parece-me apaixonada. O senhor me diz o mesmo por ela, de modo que contra a força do amor não há barreira que o impeça de se realizar, contudo gostaria de saber como ficarão os estudos de Sasha.” Sasha tomou a palavra e tranquilizou o pai “Papa, não vou parar com a faculdade, já acertamos que filhos só virão depois de diplomada. Faltam apenas três anos.”  “Muito bem, estamos nos conhecendo hoje – dirigindo-se a Guilherme – e muito embora ache que vocês se conhecem há muito pouco tempo confio em Sasha e, doravante, confiarei também no senhor. Como Freud tentou explicar os filhos apegam-se muito às mães, pois com os pais têm sentimentos conflitantes, porém, de outro lado, as filhas apegam-se aos pais por sentimentos opostos. De modo que eu e Sasha sempre fomos muito apegados um ao outro. Sinceramente espero não perder uma filha, mas ganhar um filho. Por último, há alguns costumes culturais e familiares que gostaria de ver respeitados. Em seguida alinhou um rosário de recomendações e sobre as quais não deixou nenhuma dúvida: horários e dias de namoro, moralidade, respeito, afetividade, civilidade e amizade. “Alguma dúvida seu Guilherme?” “Nenhuma seu Mikhail. Fico honrado de conhecê-lo. Tenho certeza que não o decepcionarei, nem à sua esposa e nem a toda sua família”. “Muito bem, eu os deixo à vontade”. Dando um forte aperto de mão em Guilherme, retirou-se.

                                                                       XXI

            O amor, sobretudo na civilização ocidental desde tempos imemoriais, tem seduzido estudiosos, especialistas e intelectuais (sobressaindo nestes os filósofos) para entenderem e compreenderem racionalmente esse complexo sentimento da humanidade. Alguns o reconhecem como sendo uma manifestação do eros. Neste caso fica implícito que nesse tipo de amor predomina a intenção de agradar e ser agradado. Outros, porém, especialmente no pensamento grego antigo, consideram que o amor está mais próximo da amizade, afeto e o desejo pelo bem do outro. No caso de Sasha e Guilherme essas teorias se completaram. Logo cedo irrompeu neles um desejo insopitável de conjunção sexual. Seja porque ambos não tivessem sido protagonistas de iniciação sexual anteriormente, seja porque o toque misterioso do eros os despertara para tal. De modo algum isso excluía o verdadeiro desejo pelo bem um do outro. Isso foi tão visceral em ambos que Guilherme mudou seus planos de um acalentado curso de pós-graduação na Sorbonne.

            Nos dias subsequentes e na mesma sala onde o namoro entre ambos foi oficializado, entre conversas e planos o casal se envolvia em beijos, afagos, com suas libidos à flor da pele. Guilherme avidamente mergulhava sua mão sob a saia de Sasha e acariciava suas deliciosas e brancas coxas até o limite que ela permitia, isto é, não chegar no ponto crucial, muito embora vontade não faltasse. Isso tudo era feito com absoluta segurança, tendo em vista que Sasha sabia perfeitamente que a privacidade deles naquele local estava preservada pela própria educação familiar que recebera na qual a vida pessoal de cada um era inviolável e respeitada.

            Três meses depois desses fatos Sasha e Guilherme ficaram noivos. Numa reunião simples e familiar, na residência da noiva, quando as famílias dela e dele ficaram se conhecendo, o casal assumiu o compromisso de casamento. A empatia entre as famílias foi instantânea. O mesmo aconteceu com Guilherme e os irmãos de Sasha, que ao saberem que ele jogava futebol o convidaram para fazer parte do time que eles tinham e que jogava regularmente aos sábados à tarde. Foi estourado um champanhe e servido um frugal coquetel. Naquela ocasião, apenas entre si, os noivos assumiram o compromisso de se casarem no ano seguinte. Ele estaria formado e o continuaria seus estudos, portanto sem danos às respectivas carreiras. Eles tinham pressa.

            Enquanto se desenvolvia o romance e um relacionamento cada vez mais tórrido, Guilherme ficou conhecendo toda a saga de Serguei e seu infeliz desfecho. Ainda assim, pensava em demover a noiva de se tornar policial uma atividade dura, de riscos e de retorno indigente, sobretudo aos policiais honestos. “Sascha, o passado é apenas o start do futuro, nada mais que isso, por isso entendo que você decidir o futuro por eventos, e pior, eventos sinistros, não é uma decisão sábia. Você tem o perfil talhado para a magistratura. É equilibrada, uma criatura humana sem pieguices que associada à sólida formação acadêmica que está tendo, certamente será bem sucedida.” “Vou pensar, querido. Talvez não siga nem uma, nem outra, mas siga a carreira de advogada criminal. Esse lado criminal não desejo abandonar. Se optar pela advocacia criminal estarei sempre patrocinando causas de vítimas. É! Acho que esta é uma boa idéia. Vamos ver! Vamos nos casar, teremos três filhos como temos combinado, sendo que o primogênito se for homem chamar-se-á, mesmo como???? – Indagou sorrindo, já que ambos sabiam que seria Hamilton, por duas simples razões, uma de cada um deles. Da parte dele em homenagem a um colega do curso fundamental de quem fora muito amigo e da parte dela em homenagem a um personagem de uma biografia que lera para um trabalho acadêmico, chamado Alexander Hamilton, uma figura importante na formação econômica dos Estados Unidos. Sua filha chamada Angélica Hamilton faleceu de tristeza pelo infortúnio de ter perdido um irmão, de uma prole de oito, por quem tinha um enorme amor e ao qual era muito ligada, igual a ela e Serguei. Quis, porém, o destino que suas pretensões malograssem totalmente, pois só tiveram filhas.

(Semanalmente, o Jornal de Itu publica este romance por capítulos. Acompanhe! Para ler os anteriores, clique aqui)

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