Uma mulher de princípios

                                 Éden A. Santos

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            V

Bem, voltemos à viagem. PH me falou que teremos amanhã uma longa jornada. Se tudo correr bem iremos até Cochabamba, caso contrário vamos pernoitar em Santa Cruz de La Sierra. Como estamos em três motoristas, acho que – disse ele – podemos chegar em Cochabamba. São mais ou menos 1.100 quilômetros. À noite caiu um tremendo temporal, com trovões e raios a valer. Seja pelo cansaço, seja pela caipirinha e cerveja que bebemos no jantar, dormi como um anjo. A chuva não trouxe nenhum alívio ao calor. Dormi de cueca e ar condicionado ligado. Não conheço Belém, tampouco Manaus onde, dizem, faz muito calor, mas, na minha opinião, Corumbá está entre as cidades líderes em aparelho de ar condicionado per capita. Como tem! Ele é mais desejado do que automóvel. Como combinado entre nós e o gerente, uma espécie de maitre e um ‘faz tudo’, acordamos às 5h e já tínhamos no refeitório, em um canto sobre duas mesas, o café matinal. Simples, mas suculento. Pão, manteiga, leite, café, linguiça frita, melancia e abacaxi. Nos foi oferecido ovo frito, mas declinamos. O pessoal já estava de pé àquela hora, muito embora se saiba que pelo fuso horário, em São Paulo já seja 6h. De qualquer modo era bem cedo. Após pagarmos a conta, tomamos nosso destino. Por recomendação de PH munimo-nos de garrafas d’água porque disse ele, não encontraríamos muita coisa pelo caminho. Determinou que Antena fizesse o primeiro trecho.

A ponte sobre o rio Paraguai se estende além das suas margens porque nesta época de muita chuva, como pudemos notar, o seu leito se espraia por uma enorme extensão. Antes passamos pela Receita Federal e obtivemos o visto de saída para, ao ultrapassarmos a fronteira na aduana boliviana, obtermos o visto de entrada. Numa estrada simples, porém asfaltada, logo chegamos a Porto Suarez, primeira cidade do país, aliás uma pequena aldeia. Passamos por ela e continuamos nos deparando, daí por diante, com uma paisagem bastante monótona, sem vislumbrarmos cidades importantes a não ser alguns vilarejos.

No princípio havia alguns alagados por injunção do pantanal, depois a paisagem modifica-se e passamos a ter ora campos cultivados, ora matas, predominando, porém, as savanas onde nos trechos de campos naturais pastava gado bovino. Ao longe enxergávamos a silhueta de um maciço montanhoso. Depois de umas quatro horas de viagem debaixo de um clima abafado que nem o período da manhã conseguia amenizar, foi feita a troca do motorista cabendo a mim o trecho seguinte. Cruzávamo-nos com poucos veículos. Com curvas e pistas asfaltadas de boa qualidade mantínhamos velocidades médias entre 80 e 90 km. PH recomendou-me que numa próxima e pequena cidade chamada San José de Chiquitos deveríamos parar para abastecer a Tucson. Foi o que fizemos.

Depois passamos por Santa Cruz de la Sierra, cidade que vimos à distância que, aliás, me impressionou vivamente pelo tamanho e os inumeráveis arranha-céus. Deveria ter certamente, mais de um milhão de habitantes. Sempre ouvi referências a ela, mas imaginava que fosse uma cidade pequena, talvez média. O que vi, entretanto, deixou-me de queixo caído. Subestimei a cidade e até o país. Havíamos percorrido mais ou menos 600 km, pelos cálculos de PH. Caía a tarde.

Disse que iríamos procurar uma pousada de beira de estrada para descansarmos. No dia seguinte retomaríamos a viagem até Cochabamba e, em seguida, Chaparez. Paramos num posto de gasolina, com um supermercado ao lado e uma pousada, na qual tivemos que apresentar os documentos de praxe mais o visto de entrada. Novamente fui surpreendido pela qualidade dos quartos onde fomos alojados, cada um de nós num deles, com preços altamente interessantes tendo em vista o real valorizado. Jantamos num restaurante dentro do supermercado. Jantei um tal de chicharrón uma carne de porco com molho picante. Não sei se por fome, cansaço ou ansiedade comi tudo – o que não era pouco.

No dia seguinte tomamos um café frugal na lanchonete do posto onde predominaram as conhecidas empanadas. Com PH ao volante retomamos a viagem. Aproximava-se o momento de chegarmos a Chaparez. De Santa Cruz a Cochabamba foram mais ou menos 500 km. É uma estrada profundamente difícil porque boa parte é em serra e, pior, saíamos de uma região situada a 200m de altitude para chegarmos em Cochabamba a mais ou menos 2.500 m. Cheia de curvas e poucos trechos de ultrapassagem, torcíamos para não encontrar caminhões ou veículos lentos, por que aí era preciso aguardar os lugares onde havia uma terceira faixa para isso. A mudança de altitude e, consequentemente, da pressão atmosférica causou-nos aquele habitual efeito nos tímpanos que para ser eliminado costuma-se apertar as narinas e forçar a expiração. Foi o que fiz mais de uma vez. Fiquei calado a maior parte da viagem. Antena estava à vontade, contando vantagens e mentiras. PH também se mantinha taciturno. Seis horas depois, não tendo parado para almoço, chegamos a Cochabamba. Sem dúvida, apesar de toda fiscalização na estrada PH correra bastante. Vista do alto da cordilheira, a cidade se mostrava pujante, com tantos ou mais edifícios altos do que Santa Cruz. É uma metrópole protegida por um maciço rochoso, situada num vale que certamente fora fértil e continuaria a ser não estivesse praticamente tomada pela ocupação humana.

Do alto avistamos uma estátua semelhante a do Cristo Redentor do Rio de Janeiro que Antena, sem que se perguntasse descreveu como sendo a do Cristo de la Concórdia. Contornando a cidade, dirigimo-nos para nosso destino, iniciando a saída do altiplano para a planície com os mesmos efeitos da pressão atmosférica. PH, agora um pouco mais loquaz, nos informou que estávamos a cerca de 100 km mais ou menos. Daqui por diante a estrada se mostrou bem mais modesta e menos movimentada que a anterior. Em pista simples, todo cuidado era pouco especialmente porque a partir de um certo trecho cruzávamos cada vez mais com velhos calhambeques.

Depois de termos rodado, possivelmente 30 ou 40 km começamos a ver de um lado e de outro da estrada plantações da erva. É bom que se diga que o cultivo da coca é legalizado porque é usada, desde os tempos dos incas, para ser mascada e com isso prevenir certos males. Isso é científico, todavia, o homem com toda sua sabedoria a transformou de algo benevolente na droga conhecida”.

                                                                       XI

            Apesar da longa leitura Sasha não desgrudava da descrição do irmão. Estava ansiosa por conhecer o desfecho de tudo. Folheou as folhas seguintes e percebeu que não faltava muito. Queria saber se tudo correra bem. “Uma coisa é certa, dando certo ou não, Serguei saíra ileso” – pensou. Acomodando-se, voltou à leitura.

            “Abastecemos o carro apenas uma vez. Por volta das quatro horas da tarde PH nos disse que estávamos chegando e que iríamos parar para tomar uma cerveja bem gelada. Disse que seu avô têm um empório na rua principal e em frente havia um bar com cervejas de ótima qualidade e trincando de geladas. Realmente, quinze minutos depois entramos na cidade pela estrada que a cortava bem pelo meio e que é sua rua principal. Lombadas nos fizeram diminuir a velocidade além das placas indicando o perímetro urbano e estabelecendo a velocidade em 30 km.

Pela metade do trecho PH estacionou o carro e, descendo, nos convidou para ir conhecer seu avô. O estabelecimento tinha uma placa grande na frente com o nome do proprietário “Herrera Cruz”. Ah! – exclamou Sasha – daqui deve ser aquela foto. “O empório vendia de tudo. Desde cereais, enlatados, embutidos, laticínios, produtos de higiene, até roupas. A recepção do avô de PH foi esfuziante. Era um senhor de baixa estatura com a clássica calça de algodão cru, sandálias e um poncho cinza. Abraçou o neto com força e um carinho enternecedor. Fez muitas perguntas ignorando as razões da nossa presença, não sei se propositalmente ou por desconhecer as atividades ilegais do neto. Fico com a primeira hipótese. Fui apresentado e o homem me deu um forte aperto de mão e se disse feliz em me conhecer. Cumprimentou a Antena. Depreendi que já o conhecia. Depois de uns trinta minutos de conversa animada, ora em castelhano, ora em dialeto indígena, possivelmente para não entendermos do que falavam fomos tomar a tal cerveja que não decepcionou. PH quis fazer uma selfie no celular dele e meu.

Em seguida, nos despedimos prometendo nos ver no nosso retorno. Em poucos minutos atravessamos a cidade. Dois ou três quilômetros após, PH diminuiu a velocidade e colocando a seta para a direita, entramos numa estrada de terra. Sacolejando de um lado e de outro percorremos um trecho que demorou uns trinta minutos. A estradinha estava cheia de poças d’água ocasionadas por chuvas provavelmente da manhã. O céu ainda se encontrava coberto por grossas e escuras nuvens. A área das plantações de coca havia se multiplicado e cobria agora toda a extensão das terras visíveis. Ao longe avistei duas colunas de casas com cobertura em formato de duas águas, cujas frágeis paredes, como pude verificar ao nos aproximarmos, eram feitas de barro e cobertas com uma palha, ou seria junco, não sei, muito comum na região. Deveriam ser umas oito ou dez de cada lado. Não possuíam janelas, apenas uma porta. As palhas que escorriam do telhado quase tocavam o chão.

As casas, tinham suas portas voltadas para o interior do corredor que formavam. Além do mato que vicejava pelos cantos das casas, abundavam galinhas por todos os lados e uns poucos cães esquálidos que ao nos verem aproximar, desataram um repertório de latidos que fizeram surgir uma porção de crianças alegres, vestidas algumas apenas de short e outras de short e camiseta. Todas tinham em comum os cabelos negros e lisos e uma barriguinha pronunciada. Seus pequenos olhos negros e puxados também eram uma característica comum. Lá nos fundos vislumbrei uma ampla construção de alvenaria e para lá nos dirigimos. A casa era pintada de branco, e pela sua opulência em meio àquela indigência – pensei – só poderia abrigar ‘El Hombre’.

(Semanalmente, o Jornal de Itu publica este romance por capítulos. Acompanhe! Para ler os anteriores, clique aqui)

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