Uma mulher de princípios

 XVII

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            No dia seguinte os jovens se encontraram. Sasha estava um pouco ansiosa e procurou controlar o nervosismo.

            – Tudo bem Sasha? – Recepcionou no ponto de ônibus um sorridente Guilherme e estendendo-lhe a mão, cortesmente, ajudou-a a descer do coletivo, dando-lhe um beijo na face –. Meu carro está logo ali, à frente. Você está muito bonita.

            – Obrigada Guilherme!

            Encaminharam-se pela calçada alguns metros à frente e detiveram-se diante de um carro esporte, conversível, de um amarelo chamativo, mas bonito, aliás, pensou Sasha “Muito bonito! Lindo mesmo”! Deslizaram, num dia de trânsito tranquilo, por algumas centenas de metros e chegaram a um restaurante onde já havia uma movimentação muito grande de carrões e, principalmente mulheres modernamente bem vestidas. Pessoas alegres, falando alto, ignorando aquelas ao seu redor. Sasha, procurou não se sentir inferiorizada, porque apesar de estar vestida despojadamente, era uma jovem usando seus jeans discretamente rasgados, totalmente identificada com outras jovens da sua idade. Entraram no restaurante e um gentil maitre os acolheu. “Como vai doutor”? “Inocêncio, como já te falei, ainda não sou, mas serei brevemente”. “Sua mesa está reservada. Boa tarde senhorita! – Cumprimentou a Sasha cortesmente –.“Acompanhem-me, por favor”.

            O almoço transcorreu num clima bastante afetuoso. Logo no início Guilherme convidou Sasha para tomar um vinho branco, suavíssimo – disse ele –, o que ela aceitou prontamente. Sorvendo lentamente o saboroso líquido como convinha ao ambiente e à degustação de vinhos finos que Sasha não conhecia, procurou acompanhar os movimentos de Guilherme. A conversa transcorria num ambiente descontraído.

            – Guilherme, você me pareceu um pouco intranquilo no telefonema de ontem, o que o atormenta ou atormentava?

            – Atormenta ainda. Vou te contar. Tenho um amigo desde a adolescência a quem quero muito bem. Fizemos todas as traquinagens possíveis sempre juntos. Somos inseparáveis. Ou éramos, não sei! Ele tem duas irmãs. Nunca antes me passara pela cabeça a idéia de namorar uma delas. Até que ontem, estávamos os quatro conversando, na casa deles, quando esse meu amigo virou para mim e disse: “Sabe Gui até hoje não sei porque você não é meu cunhado”? Num primeiro momento não entendi, mas logo em seguida saquei. Ele estava se referindo às suas irmãs. A mais velha logo insinuou-se e disse “Não foi falta d’eu jogar meu charme. Mas o Gui parece-me sempre alheio”. Desconcertado retorqui “Sinceramente, nunca percebi. Se é por isso eis-me aqui. Sou todo teu – brinquei”. Mas, Aline não entendeu assim e, sentando-se ao meu lado, tascou-me um beijo. Bem, a verdade é que saí de lá com a nítida impressão de todos de que estou namorando a Aline. Agora, não sei exatamente o que fazer, por isso estou pedindo tua ajuda.

            – Não sei se sou a pessoa indicada para ajudá-lo, afinal tenho apenas dezoito anos, inexperiente e nunca tive um namorado firme. Apenas flertes passageiros e sem compromisso.

            – Acho que no assunto de aconselhamento para coisas do coração não há que ter-se experiência, mas bom senso e você me parece muito ajuizada e equilibrada.

            – Não sei de onde você tirou essa conclusão.

            – Da sua discrição e comportamento.

            – Não acha pouco?

            – Apesar do pouco tempo, venho observando-a desde o dia em que colocou o pé na faculdade.

            – Certo! Vou tentar ajudar. Pelo que você me contou depois da moça…

            – Aline!

            – Isso! Da moça ter-se declarado, o assunto não se estendeu, correto?

            – Sim! Mas, ela não saiu mais do meu lado e não largou minha mão. Eu saí de lá quase correndo e em pânico. Tomei uns birinights e, então, me lembrei de você.

            – E o que é birinights?

            – É uma expressão para designar drinques.

            – Ah!

            Sasha notou que estava havendo um jogo de esconde-esconde de ambos os lados, com uma conversa que ela não saberia dizer se era objetiva ou apenas conversa mole. Deu uma cartada decisiva.

            – Porque você não explica para ela que ficou tão surpreso na hora que esqueceu de dizer que tinha uma namorada de poucos dias. Uma estudante caloura oriunda da turma daquele ano e aí você emenda uma porção de histórias.

            – Hum! Gostei da idéia. Só que eu não tenho uma e muito menos o nome dela. Como fico?

            – Diga que está namorando uma tal de Sasha –. Disse sorridente

            – Ah! Você está me fazendo uma sugestão de namoro? Pois estou feliz com a proposta e digo que SIM! – dando mais uma das suas conhecidas gargalhadas.

            – Não! Não! Não é nada disso! Só fiz uma sugestão com a intenção de ajudá-lo –. Argumentou sem muita convicção.

            Guilherme deslizou sua mão esquerda em direção da mão direita de Sasha, olhando fixamente em seus olhos. Ela sustentou o olhar e não desviou seus brilhantes olhos azuis dos castanhos de Guilherme. Estava iniciando-se ali uma incrível história de amor de dois jovens acadêmicos.

            – Só me diga uma coisa, Guilherme. Você inventou essa história toda ou ela é verdadeira.

            – Antes de te responder quero dizer que na minha vida até hoje, só tive preocupações com…, melhor dizendo, não tive preocupações. Nunca fui namorador, embora candidatas não faltassem. Preferia meus amigos e futebol. Os estudos? Bem os estudos sempre os encarei com naturalidade. Aprendia mais ouvindo os professores do que fazendo anotações. Chegando à universidade aquilo que muitos chamam de carisma, que eu sinceramente nunca soube que tivesse, me levou a liderar meus colegas, a princípio da classe, posteriormente, de todo o curso da escola. Foi então que pela primeira vez senti o prazer do poder. Tentaram me envolver com ideologias tanto de esquerda quanto de direita, porém sempre fui avesso a questões político/partidárias. Fui alçado a presidente do CA não por ambição política, mas porque meus amigos insistiram comigo e trabalharam na minha eleição, sobretudo por ter essa posição apolítica. O que eles na verdade desejavam era despolitizar o CA e ter alguém que pudesse trabalhar para exigir melhor nível de ensino e os alunos obterem melhor formação através do processo previsto pela legislação de ensino, pesquisa e extensão, com o evidente propósito de uma formação e capacitação melhor possível. Popular? Sempre fui. Em tudo que me propus fazer sempre o fiz com espontaneidade e conquistei os meus propósitos. Meu coração jamais se preocupou com namoros porque sempre me dediquei ao cumprimento das minhas obrigações e, como já disse, aos meus amigos e ao esporte. Com amor ele jamais se envolveu. Nunca acreditei em determinismo, cuja teoria se sustenta na idéia de que tudo está escrito e é, em resumo, uma relação de causa e efeito. Contudo, quando a vi pela primeira vez concluí intimamente que era você que deveria ocupar o vazio que só então percebi que existia. Como você surgiu pouco me importava. Quisera neste momento possuir a inspiração do poeta para expressar todo sentimento que vai em minha alma.  Quanto à história que lhe contei, por incrível que possa parecer, é real e aconteceu ontem antes d’eu te ligar e, agora, ao invés de apresentar uma história fictícia à Aline, contarei outra história real o que me deixa bem mais tranquilo e à vontade. Farei isso ainda hoje. Será meio desconcertante, mas o que fazer?

                                                                       XVIII

            Terminado um longo almoço de quase três horas, no qual o casal empenhou-se, mutuamente, em juras e compromissos, Guilherme levou Sasha para casa. Ao se despedirem trocaram um longo e apaixonado beijo.

            – Boa sorte Guilherme! – Desejou ao descer do carro.

            Dali mesmo o jovem fez uma ligação para a irmã do amigo.

            – Aline, aqui é Guilherme.

            – Oi querido! E eu não conheci tua voz?

            – Poderia ir agora até tua casa?

            – Claro! Você já cumpriu o compromisso social de que me falara?

            – Sim! Sim! Estou indo. O Júlio está aí?

            – Não! Saiu com meu pai. Nem sei para onde foram. Que bom que está vindo.

            – Até já.

            Meia hora depois.

            – Oi Aline! Precisamos conversar –. Trocando um rápido beijinho.

            – Nossa! Que cenho fechado! – Com um sorriso nos lábios –. O que houve?

            Ambos estavam sentados no mesmo sofá do dia anterior.

            – Aline, é a respeito de ontem.

            – Sim! O que tem?

            Neste momento Aline estava começando a ficar tensa, com as mãos entrelaçadas entre as pernas. Olhava atentamente para Guilherme, com um olhar misto de ansiedade, curiosidade e temor, sobretudo porque até aquele momento Guilherme não esboçara sequer um sorriso.

            – O namoro!

            – Ué! Não está tudo bem?

            – Não Aline! Foi tudo muito rápido. Nem você, nem Júlio, me deram oportunidade para explicar algumas questões.

            – Você não é gay, é?

            – Não Aline! O problema é que eu já tenho uma namorada.

            – O quê? Uma namorada? E por que não disse isso?

            – E vocês me deram tempo?

            Começando a chorar Aline disse “Não acredito que você me fez de tonta”! “Aline, vou repetir. Vocês não me deram tempo”. “Isso não se faz. Você brincou com meus sentimentos. Já estava fazendo planos e você me vem com essa agora? Pode sair agora! Agora mesmo. Vou contar tudo para o Jú. Vai sobrar para você!” Aline mostrava um lado da sua personalidade pouco conhecida por Guilherme. Era, surpreendentemente, pelo menos para ele, raivosa. Guilherme ergueu-se lentamente, e como últimas palavras ainda disse “Lamento! Lamento muito!” “Pois vá lamentar no inferno. Nunca mais apareça aqui seu bastardo”. Guilherme tentou entender, mas a reação de Aline ultrapassara toda sua expectativa e compreensão. Ali, possivelmente, estava se encerrando uma sólida amizade com Júlio. Aline não o perdoara. Mas, se perguntou, “Qual a minha culpa? Se houve, foi a do despreparo para questões afetivas. Claro! Tratara do assunto com a atenção que o caso exigia. Todavia, as condições estavam dadas. Era daqui para frente tocar a vida, agora com um fator que o deixava leve como a fumaça. Isso tinha um nome: Sasha”! Guilherme em apenas vinte e quatro horas se achava perdidamente apaixonado e com toda uma perspectiva de vida totalmente alterada.

            Como previsto por Aline, a amizade com Júlio desvaneceu. A história contada por ela, certamente, fora acrescida de enormes doses de vingança.

(Semanalmente, o Jornal de Itu publica este romance por capítulos. Acompanhe! Para ler os anteriores, clique aqui)

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