Dia das Mães: “Maternidade não é só gestar”, diz mãe por adoção em Itu


Para muitas mulheres, o sonho da maternidade nasce ainda na infância. Para outras, ele surge ao longo da vida, de formas inesperadas e transformadoras. A história de Paula Zagui, de 45 anos, mostra justamente que ser mãe vai muito além da gestação e dos laços biológicos.
Casada com José Zagui, de 49 anos, Paula conta que durante a infância e a adolescência nunca imaginou que a maternidade faria parte dos seus planos. Na época, seus objetivos estavam muito mais ligados aos estudos, ao trabalho e à construção da própria carreira profissional.
“Eu sempre pensava em estudar, trabalhar e conquistar minhas coisas. Nunca fui aquela menina que sonhava em casar e ter filhos”, relembra.
Já o marido tinha o desejo de formar uma família, embora inicialmente não cogitasse a possibilidade da adoção. Após dois anos tentando engravidar naturalmente, sem que o casal apresentasse qualquer problema de saúde, eles começaram a enxergar a adoção de outra forma.
A decisão, porém, não aconteceu de maneira imediata. Segundo Paula, o processo exigiu amadurecimento emocional, preparo psicológico e muita conversa entre os dois.
Durante cerca de quatro anos e meio na fila de adoção, o casal participou de terapias, encontros e grupos de apoio, experiências que ajudaram a compreender melhor os desafios, as responsabilidades e as expectativas que envolvem a adoção.
Mesmo depois da chegada do filho, os dois continuam cadastrados no sistema e aguardam a possibilidade de uma nova adoção no futuro.

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A ligação


Foi em maio de 2021 que a vida do casal mudou completamente. Paula lembra com detalhes do momento em que recebeu a ligação informando que havia uma criança disponível para adoção.
O menino tinha apenas um ano e um mês de idade. O casal ocupava a posição 21 na fila e não imaginava que o processo avançaria tão rapidamente.
“Quando o telefone tocou, foi um misto de ansiedade, medo, felicidade e insegurança. Foram 48 horas muito intensas até conhecermos ele pessoalmente”, conta.
O menino, hoje chamado José Matheus, apresentava um problema cardíaco que exigia acompanhamento médico.
Dois dias após a ligação, o casal foi conhecê-lo pela primeira vez.
Segundo Paula, o primeiro encontro foi marcado por emoção, mas também por inseguranças naturais de ambos os lados.
“A gente cria muita expectativa antes do encontro, imagina como vai ser, acha que a criança vai correr para o colo… mas não foi assim. Ele não quis colo, ficou assustado e saiu com medo da gente”, relembra.
A aproximação aconteceu de forma gradual, respeitando o tempo da criança e as orientações da equipe responsável pelo processo de adaptação.
Com o passar dos dias, vieram os primeiros passeios, o contato com a nova casa, com o cachorro da família e com a nova rotina.
“Foi muito emocionante ver ele conhecendo tudo pela primeira vez. Quando precisou voltar depois da visita, ele chorou bastante, e aquilo mexeu muito com a gente.”

Dia das Mães

A guarda provisória aconteceu em uma quinta-feira. Poucos dias depois, Paula viveu pela primeira vez o Dia das Mães já ao lado do filho.
“Naquele momento eu ainda me perguntava se realmente podia me considerar mãe. Foi quando entendi que maternidade não é só gestar. Ser mãe é cuidar, proteger, amar e construir vínculos todos os dias.”


Desafios


Poucos dias após chegar à nova casa, José Matheus precisou passar por uma cirurgia cardíaca. Paula conta que os primeiros meses da adaptação foram intensos e marcados por muitas idas e vindas ao hospital.
O menino enfrentou infecções e diversas intercorrências médicas durante o tratamento, o que tornou aquele período ainda mais delicado para toda a família.
“Foram quatro ou cinco meses muito difíceis emocionalmente, porque além da adaptação da adoção existia toda a preocupação com a saúde dele.”
Quando chegou à família, José Matheus tinha um ano e nove meses, mas ainda não andava e nem falava. Segundo Paula, o desenvolvimento começou a acontecer rapidamente após o acolhimento e os tratamentos necessários.
“Em poucos meses ele começou a evoluir muito. Hoje o coração dele está 100%, ele tem uma vida completamente normal, é extremamente inteligente, muito observador e bastante esperto.


O trabalho de apoio à adoção em Itu

Além da experiência pessoal, Paula também passou a atuar no GAAI, iniciativa que busca orientar famílias interessadas em adoção e combater preconceitos e desinformações sobre o tema.
O grupo havia sido interrompido por um período, mas foi retomado há cerca de três anos após iniciativa da advogada Vanessa Sandi, que convidou Paula para integrar o projeto.
Os encontros mensais reúnem aproximadamente 40 participantes, entre casais, famílias e pessoas interessadas em compreender melhor o processo de adoção.
Segundo Paula, grande parte das pessoas chega ao grupo completamente perdida e sem entender como funciona o processo.
“Muita gente não sabe nem por onde começar. Existe muito medo, muita insegurança e também muitos mitos sobre adoção.”
Ela explica que uma das principais missões do grupo é justamente trabalhar as expectativas dos adultos antes da chegada da criança.
“Uma criança que já passou por abandono, rejeição ou outros traumas não pode correr o risco de sofrer uma nova ruptura emocional depois.”
Para Paula, o acompanhamento psicológico e emocional dos futuros pais é fundamental para garantir uma adoção mais consciente e segura.
“Muitas vezes o maior trauma não está na criança, mas nos adultos, que acabam projetando expectativas irreais. É importante entender que a adoção não existe para preencher vazios emocionais.”


Coragem!


Outro ponto que Paula faz questão de abordar durante os encontros é o julgamento frequentemente direcionado às mães biológicas que entregam os filhos para adoção.
Segundo ela, muitas pessoas enxergam a situação de maneira superficial, sem compreender a dor e a complexidade daquela decisão.
“As pessoas perguntam como uma mulher consegue entregar um filho. Mas, muitas vezes, não é falta de amor. Pelo contrário. Em muitos casos é coragem, porque aquela mãe entende que talvez outra família consiga oferecer oportunidades, estrutura e cuidados que ela não conseguiria naquele momento.”
Para Paula, a adoção transformou completamente sua vida e trouxe aprendizados profundos sobre amor, acolhimento e construção de vínculos.
“Não é um caminho fácil, porque exige preparo emocional, paciência e consciência. Mas é algo extremamente gratificante e transformador para todos os envolvidos.”

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